Escrita e Poder 2

Desde que foi inventada, provavelmente para permitir a manutenção de registros comerciais, a escrita sempre esteve, de alguma forma, associada ao poder.

Estatueta de escriba egípcio

Estatueta de escriba egípcio

Nas civilizações antigas, os escribas detinham o poder da escrita, pois o domínio dessa tecnologia era de conhecimento restrito. Esse poder aproximava os escribas das classes dominantes (reis, faraós etc.), que sancionavam as informações que deveriam ser registradas. Assim poucos tinham o poder de decidir o que seria ou não registrado e poucos tinham o poder (a capacidade) de fazer esse registro.

No mundo moderno, apesar de as tecnologias 2.0 terem oferecido a todas as pessoas a capacidade de se tornarem autoras de seus próprios textos, ainda sobrevivem instâncias nas quais a escrita se apresenta como uma tecnologia para registro e circulação de informações cujo acesso é restrito. Um exemplo disso ocorre na instituição que chamamos de academia.

Artigos, monografias, dissertações e teses são os nomes de alguns gêneros textuais altamente ritualizados pelos quais o conhecimento produzido nas diversas ciências passa pelo crivo de corpos editoriais e bancas examinadoras, formadas por autoridades já referendadas por pares dentro da própria academia.

Não há aqui uma crítica, mas um preâmbulo para tentar explicar o que estaria por trás de uma história que ouvi há alguns dias e que, por motivos éticos, relato aqui sem dar os nomes aos ‘personagens’.

A história começa quando um professor entrevista um conhecido filósofo e pergunta por que este não tem um blog. A resposta do entrevistado é contundente: “não estou interessado em investir meu tempo e esforço em textos efêmeros”.

Passado o (meu) choque, uma vez que reconheço tal filósofo como alguém que valoriza as novas tecnologias, busquei entender o que ele poderia ter querido dizer com ‘textos efêmeros’.

Encontrei duas justificativas que podem muito bem ser equivocadas:

(a) O filósofo, isso é fato, vive em uma cultura altamente letrada na qual os textos circulam de forma bastante fluente. Nessa cultura, as ideias precisam ser depuradas, aprofundadas antes que adquiram a forma final, que deverá ser registrada pela escrita e impressa;
(b) O filósofo teme que seus textos sejam indevidamente apropriados por estranhos que não lhe reconhecerão a autoria das ideias. Trata-se do medo do plágio, que gera muitas ‘histórias de horror’ na academia.

Talvez a resposta do filósofo seja explicável por uma combinação das duas justificativas acima, mas teimo (é a leitura que quero fazer) em ver a segunda explicação como a mais provável.

Reconheço que o medo do plágio é grande e afeta a todos na academia e sei que a Internet é fonte quase inesgotável de textos que podem sofrer apropriação indébita por pessoas inescrupulosas. Mas acredito que seja justamente a Internet a solução desse problema, e ela pode estar nos blogs.

Ao publicar uma ideia inovadora no seu blog, por exemplo, o nosso filósofo poderia garantir seu direito à autoria sobre ela. Se ele é realmente uma pessoa conhecida, seu blog terá milhares de leitores, que saberão ser dele a autoria da ideia inovadora. Isso dificultará que um espertalhão venha reivindicar a autoria indevida sem o risco de ser desmascarado.

Resta saber se acadêmicos como o nosso filósofo estão dispostos a ‘quebrar essa barreira’ e passar a realmente partilhar suas ideias, permitindo-se realmente construir o conhecimento em rede.

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4 Comentários

  • By Carlos Nepomuceno, 20 de Julho de 2009 @ 7:20

    Zé,

    parabéns pelo blog, pela profundidade do tema…e acho que o blog, antes de tudo, fará muito bem para a sua mente que vai se alargar, verás.

    Forte abraço,
    Nepô.

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  • By Carlos Nepomuceno, 20 de Julho de 2009 @ 7:24

    Já coloquei o blog…na minha lista de links…espero que ajude.

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  • By José Paulo, 20 de Julho de 2009 @ 11:18

    Nepô,

    Vai ajudar, sim. Muito obrigado.

    Abração

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  • By José Paulo, 20 de Julho de 2009 @ 11:20

    Nepô,

    A proposta é exatamente essa!

    Já uso o texto (manuscrito, digitado) como ferramenta para refletir sobre as leituras que faço.

    ‘Blogar’ será uma forma bem diferente de fazer a mesma coisa.

    Abração e obrigado pelo estímulo.

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