Teremos políticos 2.0?
A revista Exame deste mês traz um especial sobre o uso das redes sociais nas empresas (O Poder das Redes Sociais), o que em si não é de fato notícia nova.
O que é relevante, na minha opinião, é o destaque dado a Benjamin Self, o consultor responsável pela vitoriosa estratégia de campanha de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos.
Self orquestrou o movimento pró-Obama nas redes sociais mais populares de seu país, principalmente no Facebook. E agora, pelo que parece, ele emprestará sua competência à campanha petista para as eleições de 2010. O problema é que, o próprio consultor já deve saber, os políticos brasileiros estão embarcando com atraso nas redes sociais.
Segundo a matéria, a pesquisadora Beth Saad (USP) teria sido chamada às pressas ao Palácio do Planalto para explicar aos assessores e secretários a que vieram Orkut, Facebook, Twitter, blogs e companhia. Mas parece que a mensagem não foi bem compreendida.
E a recente alteração da lei eleitoral para permitir o uso das novas mídias sociais durante a campanha não garante que o uso que se fará dessas mídias tenha qualquer relação com a forma como elas de fato funcionam.
A explicação é simples: os políticos estão mais acostumados a falar, a transmitir suas mensagens no formato um-para-muitos no intuito de conquistar votos. Esse formato funciona muito bem nas mídias tradicionais (rádio e TV), mas não tem nada a ver com a natureza dialógica das redes sociais.
Nessas redes, o formato imperante é o muitos-para-muitos, pois todos os participantes têm igual direito de se expressar, e geralmente o fazem de formas variadas, seja apenas expondo seus sentimentos, seja criticando uma empresa e seus produtos, seja buscando ajuda de colegas etc. E eles têm plena consciência de seus direitos de expressão, resistindo a qualquer tentativa de censura.
Será que nossos políticos estão preparados para dialogar, para ouvir o que os eleitores têm a dizer, para aceitar críticas sem buscar refúgio na censura?
De que adiantaria, por exemplo criar um blog para se comunicar com os eleitores e não permitir que eles comentassem e criticassem as mensagens publicadas?
Nossos políticos teriam o controle emocional e sangue frio para receber críticas diretas? Sim, porque elas serão feitas, não importando o quão carismática seja a pessoa pública envolvida.
E, por fim, eles tentarão explorar as redes sociais ‘no atacado’? Se o fizerem, estarão cometendo o erro de ignorar que, no Brasil, elas são bastante segmentadas: metade do território do Orkut, de longe a rede mais popular, é ocupada pela classe C; Facebook e Twitter parecem ter outro perfil, mais familiar às classes A e B.
Por outro lado, empregar apenas uma rede pode não ser uma boa estratégia. Os blogs, por exemplo, ainda que bastante populares, parecem não despertar tanto interesse quanto Orkut e Twitter. Mas se sabe que um bom número de donos de perfis do Twitter também têm blogs. A boa articulação entre as mídias pode ser a estratégia mais recomendável.
Boa sorte para Self!
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