Antropólogos no YouTube

O vídeo An anthropological introduction to YouTube é a apresentação que Michael Wesch, professor de Antropologia Cultural da Universidade do Estado do Kansas, fez na Biblioteca do Congresso em 23 de junho de 2008 com o propósito de divulgar um campo de pesquisa emergente: a antropologia em redes sociais, mais especificamente na rede de compartilhamento de vídeos YouTube.

Wesch inicia sua apresentação com dados surpreendentes: informa que a quantidade de vídeos publicada no YouTube já superou o que é produzido pelas redes tradicionais de mídia, um fato significativo para o que se convencionou chamar de Web 2.0, contexto em que o conteúdo é produzido e consumido por usuários comuns.

Em seguida, Wesch ressalta que as novas mídias da Web 2.0 se intercomunicam, pois um vídeo publicado no YouTube é comentado em blogs e microblogs, originando o que ele chama de Ambiente de Mídias Integrado (Integrated Mediascape). Essa integração vai além das tecnologias e informações, afetando, inclusive, os relacionamentos humanos.

Wesch caracteriza a pesquisa que vem realizando com seu grupo no YouTube como de natureza etnográfica e ressalta sua base metodológica na observação participante quando declara a importância de vivenciar os fenômenos para compreendê-los.

A partir da observação longitudinal feita por seus alunos, vários fenômenos característicos dessas novas sociedades em rede vêm sendo elucidados:

  • Implosão do Contexto (Context Collapse): A ideia é que ‘todos estão assistindo, mas não tem ninguém lá’, isto é, as pessoas publicam vídeos sem saber em que contexto eles serão considerados. Esses conteúdos podem, inclusive, ser remixados.
  • Autoconsciência Exacerbada (Hyper Self-awareness): O próprio autor poderá se tornar plateia de seu vídeo, o que exacerba o potencial para a autorreflexão.
  • Anonimidade aliada à Distância Física aliada ao Diálogo Raro e Efêmero resulta em Ódio como Performance Pública (demonstração pública de ódio) / liberdade para experimentar ser humano sem medo ou ansiedade. O primeiro aspecto é bastante conhecido como ‘flaming’ em fóruns virtuais. A segunda possibilidade, entretanto, não costuma ser ressaltada em mídias sociais.
  • Arrebatamento Estético (Aesthetic Arrest): A rede permite que as pessoas invistam na observação de outras sem o medo de serem pegas no ato de observação (staring), que é considerado socialmente condenável. Isso traz admiração profunda pelo outro.
  • Enganando o Sistema (Gaming the System): Os usuários aproveitam-se das características/limitações do sistema para conquistar popularidade. Ex. Os thumbnails exibidos na pré-apresentação dos vídeos são obtidos no trecho central do vídeo enviado, portanto quem deseja conquistar público insere nesse ponto imagens de impacto.

O conceito de Autenticidade também é discutido a partir do questionamento sobre a possibilidade de as pessoas representarem personagens que não refletem suas identidades reais. Esse fenômeno é atualmente analisado sob a perspectiva de que a identidade não é monolítica, mas construída contextualmente .

Esse vídeo é fundamental para quem pretende obter uma compreensão do fenômeno das mídias sociais a partir de uma visão ‘de dentro’.

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Educação 2.0

No artigo From Knowledgeable to Knowledge-able: Learning in New Media Environments, Michael Wesch, professor da Universidade do Kansas, apresenta neste artigo uma reflexão sobre a educação que ainda predomina em grande parte das escolas e que se fundamenta nos pressupostos de que aprender é acumular conhecimentos valiosos que são transmitidos dentro de uma estrutura social na qual se destaca a autoridade do professor.

Para o autor, essa educação vem sendo ameaçada pelas novas tecnologias de informação e comunicação, que há algum tempo vêm instaurando novas formas de interação, discurso, sociabilidade e colaboração. E as novas gerações parecem cada vez mais familiarizadas com essa verdadeira revolução tecnológica e social.

Wesch assinala dentre os marcos dessa revolução: a popularização dos blogs, que deram aos usuários o poder de se transformar em produtores de informação e não mais meros consumidores como nas décadas anteriores; a Wikipedia, que provou que conteúdo produzido por usuários pode ter qualidade compatível com a de obras produzidas por especialistas; e as novas formas de organizar coletivamente o aparente caos da Web, tais como as tags (etiquetas).

Nesse novo contexto de mídias, ele afirma, chega-se ao ponto em que o usuário não mais precisará buscar a informação, pois ela poderá chegar até ele.

Ao ignorar essa realidade, a educação acaba por gerar o fenômeno que wesch chama de ‘crise da significância’, pela qual os alunos lutam para encontrar sentido naquilo que a escola lhes impõe e quando não o encontram demonstram comportamentos disruptivos – desatenção, confrontação e até agressividade.

A solução para Wesch está na aceitação de que a informação no mundo atual não mais se encontra em um lugar privilegiado (a escola) nem tampouco nas mãos de um ser privilegiado (o professor). Ela está em todos os lugares, acessível por diversas tecnologias que os próprios alunos já dominam. O que falta é lançar o foco sobre o porquê aprender (a significância para o aluno), facilitar o como aprender (dando-lhe recursos que a tecnologia não garante) e deixar que a aprendizagem ocorra naturalmente.

O ‘como’ é para Wesch de vital importância. Na educação que vimos fazendo até então, simplesmente organizávamos o conhecimento a ser transmitido em disciplinas estanques (língua portuguesa não tem a ver com matemática, que não tem a ver com geografia etc.). Na educação verdadeiramente contemporânea, wesch defende que o foco seja deslocado para as subjetividades, isto é, para as formas de abordar, compreender e interagir com o mundo.

Ensinar com foco em subjetividades implica criar instabilidade, desafiar os pressupostos que todos os seres humanos têm arraigados dentro de si. Isso é desafiador e só ocorre onde há respeito mútuo entre professor e aluno. Cabe ao professor, nesse contexto, instilar no aluno a confiança necessária de que ele precisará para enfrentar o desafio de questionar tudo, inclusive a si mesmo.

Wesch não tem respostas sobre a forma certa de enfrentar esse desafio, que ele chama de ‘antiensino’. Na verdade, ele aponta as dificuldades inerentes ao processo a partir de sua própria prática no ensino superior – p.ex. a necessidade de cumprir exigências institucionais para avaliação de aprendizagem.

O que ele destaca, entretanto, também a partir de sua experiência, é que o antiensino permite criar ambientes efetivamente favoráveis à aprendizagem significativa para o aluno.

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Blogosfera 2009

A pesquisa anual Estado da Blogosfera, feita pela Technorati, apresentou seu sexto relatório no mês passado. Embora os dados abranjam blogs de 50 países, quase a metade dos blogueiros que participaram é dos Estados Unidos.

De qualquer forma, os resultados da pesquisa apontam um amadurecimento da blogosfera mundial e sugerem uma grande familiaridade com a mídia, visto que os participantes relataram ter, em média, três ou quatro blogs.

Blogueiros continuam a apresentar um perfil diferenciado: homens (2/3 do total), adultos (18-44 anos), com nível educacional alto em relação à população geral (40% são pós-graduados). Pode-se dizer que se trata de um público formador de opinião ou, pelo menos, capaz de refletir sobre os fatos. Cerca de 30% são, de fato, capazes de influenciar a opinião dos internautas, pois são de alguma forma relacionados às mídias tradicionais (escritores, repórteres).

A pesquisa propõe uma classificação dos blogueiros em quatro categorias:

  • Blogueiros por Passatempo: Representam a maioria (72%). Diferentemente dos demais, não são remunerados por sua atividade, que realizam por diversão. Costumam publicar semanalmente.
  • Blogueiros em Tempo Parcial: Representam os 15% que têm no blog um complemento de renda. A maioria (75%) quer apenas compartilhar seus conhecimentos.
  • Blogueiros Autônomos: Representam os 9% mais profissionais desse universo, pois são remunerados por sua atividade, a qual é executada em tempo integral em nome de sua própria empresa ou organização. Coincidentemente, são os que mais usam (88%) o Twitter.
  • Blogueiros Profissionais: Representam os 4% que blogam para uma empresa ou organização. A maioria (70%) o faz para compartilhar expertise.

Autoexpressão e compartilhamento de expertise são as razões mais frequentemente apresentadas para serem blogueiros – o que não representa uma mudança em relação às pesquisas anteriores. Os Blogueiros por Passatempo têm maior propensão a discutir os aspectos políticos dos temas que publicam, o que raramente ocorre nas demais categorias.

A emergência de outras mídias (p.ex. Twitter) e redes sociais vem causando impacto na blogosfera, pois os blogueiros que vêm aderindo às novidades relatam que têm atualizado seus blogs com frequência menor. De fato, blogueiros têm maior tendência a usar o Twitter do que o restante da população, e o fazem com propósitos diversos: divulgar seus blogs, destacar links interessantes e descobrir as tendências do momento.

Os blogs têm-se caracterizado por uma crescente sofisticação em termos de informação e suporte tecnológico: a maioria (85%) explora recursos como tags, que facilitam a recuperação de textos; grande número (82%) dos blogueiros usam fotos e vídeos em seus blogs; um número ainda pequeno (20%), mas não desprezível, de blogueiros afirma atualizar seus blogs por meio de dispositivos móveis.

Segundo David Hughes, a maturidade dos blogs os transformou em ferramentas poderosas para ativistas, como se observou neste ano durante os protestos contra as eleições iranianas e durante a campanha presidencial nos Estados Unidos no ano anterior. Os participantes da pesquisa acreditam que o maior impacto da blogosfera ocorra mesmo na política e nos negócios.

A pesquisa conclui que a blogosfera se tornou uma ‘caixa de ressonância’ para identificação de questões que devem merecer atenção da sociedade. Mesmo que os blogs abordem questões locais, é preciso reconhecer que sua platéia pode ser universal, o que amplifica o significado dessas questões (creio que o blog de Yoani Sánchez seja um exemplo perfeito disso). Isso resulta na nova tendência puxada pela blogosfera: a globalização da liberdade de expressão.

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Vida longa ao E-mail

Tem-se alardeado que o e-mail, tecnologia de comunicação mediada por computador (CMC) mais popular durante décadas, estaria com os dias contados.

Mas um estudo recente sugere que isso pode não ser verdade e apresenta dados da Geração Y, justamente a mais antenada com novas tecnologias de CMC como as redes e mídias sociais, para mostrar a fragilidade das notícias sensacionalistas.

O estudo foi realizado em outubro com estudantes universitários dos Estados Unidos, que declararam que dificilmente deixariam de ler e enviar e-mails durante uma semana. Isso para quem passa, em média, 33 horas semanais em sites de redes sociais.

Uma razão apresentada para essa ‘fidelidade’ dos jovens a uma tecnologia tão ‘antiga’ é o fato de que as redes sociais costumam contar com o e-mail para enviar alertas e avisos de atualização aos usuários.

Outra pesquisa**, também feita nos Estados Unidos, mas no primeiro semestre deste ano, já sugeria que as redes sociais não causavam a queda no uso do e-mail.

Será que a morte do e-mail foi, então, decretada prematuramente?

 

** Link abre arquivo PDF

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Um Twitter na Escuridão

No incidente de 10 de novembro, que deixou 18 Estados às escuras, o Twitter demonstrou, mais uma vez,  seu potencial como ferramenta de informação em tempo real. Pelo menos isso ficou muito claro (sem trocadilhos) para mim.

Impossibilitado de me conectar, assim que desconfiei que a falta de energia era mais do que apenas um problema no bairro, liguei o rádio do celular e passei a acompanhar uma das estações que ainda estava no ar. Era uma das que transmitem notícias 24 horas. O assunto, claro, não poderia ser outro que não o ‘apagão’ (depois rebatizado como blecaute).

O mais interessante foi poder saber, em tempo real, o que acontecia em meu Estado, em São Paulo, no Paraná, no Rio Grande do Sul, na Bahia etc. graças às curtas mensagens de 140 caracteres que outros ouvintes postavam no perfil da rádio naquele momento.

Os jornalistas mal coneguiam acompanhar a enxurrada de mensagens e frequentemente informavam que iam atualizar a página. Cada ação dessas trazia dezenas de novas mensagens, algumas desmentidas nos minutos seguintes à medida que os fatos evoluíam (ou não) e o problema começava a ser resolvido.

Era angustiante saber que grande parte do país estava às escuras e pensar que conhecidos poderiam estar presos em elevadores ou desorientados nas ruas, mas era também reconfortador saber que algumas cidades já começavam a ter o fornecimento normalizado.

Essa data ficará marcada para mim. Quando me perguntarem o que eu estava fazendo na hora do apagão/blecaute de 10 de novembro de 2009, eu direi que estava ‘ouvindo’ o Twitter no celular.

Parabéns à equipe da Bandnews FM pela cobertura!

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