Simone Conceição, autora de 147 Tips for
Teaching Online Groups, é brasileira, mas, desde 1990, trabalha na Universidade de Wisconsin-Milwaukee, EUA.
Simone é doutora em Educação, tendo desenvolvido sua tese na área de educação a distância de adultos. Atualmente, exerce a função de consultora nas áreas de tecnologia e desenho instrucional (Instructional Design/Technology Consultant) na Faculdade de Educação da Universidade de Wisconsin-Milwaukee.
Nesta entrevista ao editor do Boletim, Simone fala sobre sua experiência em educação a distância na Universidade e sobre o livro 147
Tips.
JOSÉ PAULO - Gostaria que você nos contasse como começou seu envolvimento com a educação a distância.
SIMONE - Comecei meu envolvimento com a educação a distância durante o meu mestrado em educação para adultos na Universidade de Wisconsin em Milwaukee. Eu participei de um curso sobre o desenvolvimento de projetos educacionais para adultos usando tecnologia. O curso me deu uma visão das diferentes possibilidades de usar tecnologia para educação. Naquela época, a turma de alunos visitou centros educacionais, como por exemplo o Centro Educacional da General Electric aqui no Estado de Wisconsin. Eu comecei a me apaixonar pelas diferentes maneiras de oferecer treinamento para adultos sem que eles tenham que viajar a um certo local. Ao término do curso, eu tinha me convencido que deveria continuar os meus estudos nesta área. Também comecei a me envolver com projetos de cooperação com a Universidade de Wisconsin-Extensão (UWEx), localizada em Madison. Organizei vários projetos na área de treinamento no uso de videoconferência e desenho instrucional com colegas da UWEx. Há mais de três anos, tenho trabalhado para a Escola de Educação. O meu trabalho aqui envolve coordenação de atividades na área de educação a distância, treinamento e desenho instrucional.
JOSÉ PAULO - A educação a distância vem ocupando cada vez mais destaque no cenário educacional brasileiro. Já existe uma secretaria do MEC especificamente criada para regulamentá-la (SEED), começam a surgir cursos de graduação e pós-graduação, sem mencionar as universidades corporativas, que crescem mais rapidamente do que sua congêneres institucionais. Apesar do interesse que parece haver na população com relação a essa modalidade, não é ainda possível determinar se os empregadores terão restrições contra profissionais formados a distância. Qual o valor do diploma obtido a distância no mercado de trabalho norte-americano?
SIMONE - Na minha opinião, educação a distância ainda é um mito aqui nos EUA. Há ainda os que consideram educação a distância um diploma facilmente obtido. Mas eu acho que o mito está vagarosamente desaparecendo, porque as universidades que oferecem diplomas exclusivamente on-line estão sendo "acreditadas" por órgãos educacionais. Por exemplo, a Capella University é acreditada pela
Higher Learning Commission
(NCA). As Universidades tradicionais são as que têm maior dificuldade em aceitar o modelo educacional a distância. Na realidade, o grande mito sobre educação a distância é a falta de conhecimento sobre o campo, o tipo de trabalho que isto envolve, e as diferentes possibilidades que pode oferecer.
JOSÉ PAULO - Tudo indica que o modelo de educação a distância que se instalará no Brasil será misto, ou seja, haverá um percentual de aulas presenciais ainda que o curso seja predominantemente realizado por meio de tecnologias (material impresso, redes de comunicação). Enquanto isso, sabemos que existem cursos de pós-graduação realizados totalmente a distância (p. ex.: o Mestrado em Educação Aberta e a Distância oferecido pela Open University). Como você avalia a necessidade desse percentual de presença? Não seria um fator de exclusão embutido na educação a distância em países como o Brasil, onde poucos têm condições e possibilidade de deslocamento até os grandes centros urbanos onde estão as universidades?
SIMONE - Eu diria que o fator de exclusão dependeria de como você olha o modelo misto. Aqui na Universidade de Wisconsin em Milwaukee, nós chamamos este modelo misto de "híbrido." Isso significa que as aulas são oferecidas usando o modelo presencial e o modelo a distância. Em nosso caso, os alunos aproveitam as possibilidades dos dois mundos. Eu considero este modelo uma oportunidade de ensinar aprendizes as habilidades tecnológicas e ao mesmo tempo interagir com os professores. Considero este método incluso. A universidade tem a obrigação de oferecer equipamento e locais onde os alunos possam acessar tecnologias e receber apoio técnico. Para professores tradicionais, esta é uma ótima oportunidade de aprender como usar a tecnologia e ambientar-se ao novo modelo de ensino.
JOSÉ PAULO - Na introdução do 147 Tips, vocês explicitam que trabalham dentro de uma abordagem construtivista em que estimulam o envolvimento ativo do aprendiz com seu processo de aprendizagem. Vocês possuem algum levantamento que indique qual é a expectativa inicial de seus alunos quando se inscrevem para fazer seus cursos on-line? Eles esperam um curso em que tenham um papel tão ativo e participante ou vêem o curso on-line como semelhante a um tutorial de auto-aprendizagem?
SIMONE - Para cursos completamente on-line, eu pessoalmente envio uma carta de boas vindas duas semanas antes de o curso iniciar explicando sobre o curso e sobre a forma de acesso a ele na web. Quando os alunos acessam o curso on-line, eles são encaminhados a responder uma série de perguntas que vai desde o nível de habilidade com a tecnologia até o tipo pessoal de aprendizagem preferido. Eu tento desenhar cursos que oferecem estilos de aprendizagem variados. Por exemplo, incluo atividades de auto-aprendizagem, atividades em grupo, testes, tutorials, e/ou atividades individuais. Desta maneira, eu atinjo vários estilos de aprendizagem.
JOSÉ PAULO - No primeiro capítulo do livro, vocês ressaltam a necessidade de que o profissional envolvido com o ensino a distância via web saiba trabalhar em equipes compostas por profissionais de áreas diversas. A partir da avaliação de sua experiência prática, você crê que isso seja possível? Como se dá, por exemplo, a relação entre um educador e um tecnólogo sem preparo na área pedagógica, que precisam trabalhar juntos na realização de um curso on-line?
SIMONE - Na realidade, trabalhar em equipe é o ideal, mas nem sempre isso acontece. Instituições que têm um sistema educacional a distância bem estruturado, geralmente trabalham com equipes. A idéia de trabalhar em equipes facilita o desenvolvimento do desenho de cursos, pois cada membro da equipe se torna responsável por áreas em que tem conhecimento. O instrutor deveria se preocupar somente com o desenvolvimento do conteúdo e a sua implementação através de atividades pedagógicas. Ter uma pessoa responsável pelo website e desenho instrucional deixa mais tempo para o instrutor se dedicar aos alunos.
Eu recomendo os seguintes livros ao leitor/a caso esteja interessado/a no desenvolvimento de trabalhos em equipes: Driscoll, M. (1998). Web-based training: Using technology to design adult learning experiences. Jossey-Bass/Pfeiffer: San Francisco. E Kruse, K. & Keil, J. (2000). Technology-based training: The art and science of design, development, and delivery. Jossey-Bass/Pfeiffer: San Francisco.
JOSÉ PAULO - Ainda no capítulo 1, vocês abordam o perfil esperado de um aprendiz que queira participar de um curso via web. Aparentemente, esse aprendiz precisa ser quase um autodidata. Se essa interpretação for correta, educação a distância via web é destinada a um público-alvo específico. Seria então ingênuo vê-la como uma forma de democratização do ensino, como se pretende em alguns setores da educação brasileira?
SIMONE - Eu não acho que o estudante a distância tenha que ser autodidata. O importante é que o sistema educacional proporcione apoio técnico e pedagógico aos estudantes durante o curso. Um dos aspectos do trabalho em equipe em um sistema de educação a distância é o trabalho das pessoas que provêem apoio técnico e pessoal a estudantes, o que a gente chama de help desk. A help desk ajuda os estudantes que têm dificuldades de conexão, compreensão pedagógica e tecnológica etc. O uso da help desk é essencial para o funcionamento eficiente do sistema educacional a distância. Help desks envolvem o uso de números de telefone gratuitos para os alunos recorrerem a uma pessoa para perguntas, acesso a chats, ou e-mail, que é respondido dentro de poucas horas. O importante é oferecer as ferramentas tecnológicas apropriadas e apoio a estas ferramentas.
JOSÉ PAULO - Um dos aspectos essenciais, do qual senti falta no 147 Tips, é a evasão. Imagino que vocês tenham decidido não abordá-la porque a proposta da obra é eminentemente pragmática, ou seja, trazer dicas sobre o que pode ser feito e não empreender discussões sobre problemas. Além disso, muitas das dicas refletem sugestões oferecidas na literatura especializada sobre o que pode ser feito para prevenir a evasão. Por outro lado, creio que tais dicas poderiam ser organizadas em função desse tema. Qual sua opinião sobre minha crítica e de que forma vocês lidam com o problema da evasão em seus cursos on-line?
SIMONE - Acredito que é muito importante considerar o problema da evasão. Algumas de nossas dicas não tratam diretamente sobre a evasão, mas podem ser usadas como prevenção da evasão. Por exemplo, a criação de uma comunidade on-line, feedback constante do professor e atividades que promovem trabalho em grupo podem ajudar o declínio da evasão. Um aspecto que nós não abordamos no livro foi a oferta de apoio ao estudante por parte de outros membros da equipe. O apoio tecnológico e pedagógico, como expliquei anteriormente, é de fundamental importância. Em meu papel de consultora para professores, aqui na Universidade de Wisconsin em Milwaukee, mais recentemente eu comecei a desenvolver documentos com dicas para estudantes de como gerenciar tempo para atividades on-line, como participar de atividades assíncronas e síncronas mediadas por tecnologias predominantemente baseadas em texto. Eu uso avaliações durante o curso para ver como os alunos estão indo e isso me ajuda a ver se preciso modificar o desenho do curso. Eu também contato estudantes pessoalmente via e-mail e, se possível, via telefone caso o desempenho no curso não seja adequado.
Um outro método que ajuda estudantes a se sentirem conectados com o curso é o uso de conferências via telefone para clarificar tópicos ou outras atividades em classe. Essas conferências via telefone são gratuitas para os alunos.
Outro método de que ouvi falar mais recentemente é o uso de lurkers ('pessoas que se escondem'). Lurkers são membros da equipe que observam o desempenho de alunos em cursos on-line. O objetivo principal de usar lurkers é para observar os alunos e ver se os alunos participam adequadamente no curso. Os lurkers contatam estudantes que têm dificuldade e dão apoio técnico e/ou pedagógico imediato. Neste caso, o lurker tem um papel ativo no aprendizado do estudante. Em vez de esperar o estudante buscar ajuda na help desk, o lurker dá ajuda ao estudante antes que ele desista de participar do curso. Os estudantes recebem o lurker como uma pessoa que se preocupa com o seu desempenho no curso. Esta estratégia de apoio ao estudante tem feito com que os índices de evasão diminuírem tremendamente.
JOSÉ PAULO - Bem, Simone, gostaria de agradecer por você ter cedido seu tempo para esta entrevista. Você tem algum comentário final?
SIMONE - Acho que a educação a distância tem um potencial muito grande tanto aqui nos EUA como no Brasil. O importante é a gente entender como um sistema educacional a distância funciona. A educação a distância deve ser vista de ângulos diferentes - do ponto de vista do aluno, do professor, do administrador etc. A melhor maneira de entender este sistema é participar de atividades de ensino e aprendizagem on-line, pois só assim a pessoa adquire uma visão mais profunda do que realmente é ensinar ou aprender em um ambiente on-line. Ensinar ou aprender a distância envolve mudança. Muitas vezes as pessoas estão acostumadas com o estilo tradicional de ensino e aprendizado - palestra e recepção de conteúdo sem participação - e a primeira reação é negar os seus potenciais. Uma das coisas que eu observo no meu dia a dia é que as pessoas que se tornam envolvidas com educação a distância se tornam melhores professores e melhores alunos por causa do tipo de ensino e aprendizagem on-line. Tanto para o aluno como para o professor, educação a distância envolve uma reavaliação de nossas habilidades de organização, pensamento crítico, gerenciamento de tempo e participação em sociedade.
Para contatar a entrevistada:
Simone Conceição, PhD
Instructional Design/Technology Consultant
University of Wisconsin-Milwaukee
School of Education
P.O. Box 413
Milwaukee, WI 53201
Homepage: http://www.uwm.edu/~simpass/
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