Como citar este artigo:
ARAÚJO, J.P. Resenha: 147 Tips for Teaching Online Groups. [Online] Disponível em: <www.comunicar.pro.br/artigos/resenha_147tips.htm> 2002. Consulta em:
 
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Resenha: 147 Tips for Teaching Online Groups

José Paulo de Araújo

Esta obra recebe o coerente subtítulo de Aspectos essenciais da educação baseada na web, pois, em seus 4 capítulos, os autores se dedicam a esmiuçar desde questões relacionadas à fundamentação pedagógica da educação a distância on-line até técnicas para a efetiva elaboração e condução de um curso nessa modalidade educacional.

Paradigma Construtivista
Já na introdução, os autores declaram objetivamente que sua abordagem à educação a distância on-line será realizada dentro de um paradigma construtivista, segundo o qual o ensino deve estimular a participação ativa do aprendiz, que precisa interagir com os conteúdos, com o professor e também com outros aprendizes.

A leitura da obra revela que, embora os autores tenham realmente privilegiado uma abordagem construtivista e interacionista, muitas das 147 dicas oferecidas seriam aplicáveis a outras abordagens de ensino, mesmo àquelas mais centradas no professor.

Reflexão antes da Ação
O primeiro capítulo do 147 Tips poderia funcionar como um estímulo à reflexão, pois é nele que os autores convidam o leitor a considerar alguns dos pilares da educação a distância on-line, a saber: a necessidade de considerar previamente o tipo de trabalho a ser realizado, a importância da tecnologia, a natureza da interação proporcionada por essa tecnologia e o perfil desejável de aprendizes e professores.

Com relação ao trabalho, a obra emprega a metáfora do time, ou seja, enfatiza que os profissionais envolvidos em um projeto de ensino a distância precisam ser capazes de cooperar com outros profissionais de áreas de formação distinta. 

À tecnologia, por sua vez, atribui-se uma função múltipla, pois ela deve não só possibilitar o trabalho docente e a participação discente, como também facilitar a interação e a socialização dos sujeitos envolvidos.

O conceito de interação empregado pelos autores explicita a natureza múltipla desse processo, que é interpessoal (aprendiz-aprendiz e aprendiz-professor), mas também engloba a relação do aprendiz com objetos, aqui representáveis tanto pela tecnologia quanto pelos conteúdos didáticos. Os autores ainda advertem o leitor do risco de que a excessiva interação com a tecnologia possa prejudicar o aspecto interpessoal, que para eles é constitutivo do processo de aprendizagem.

Na abordagem do perfil do aprendiz, surge uma questão importante: pelas dicas apresentadas, os autores deixam implícito que o aprendiz a distância na modalidade on-line deve possuir habilidades de gerenciamento de tempo e um nível de motivação provavelmente encontráveis apenas em indivíduos com um grau de autonomia muito semelhante ao dos autodidatas. Conclui-se, portanto, que educação a distância on-line, pelo menos dentro da abordagem proposta na obra, não funciona com qualquer aprendiz, o que jogaria por terra a esperança existente em alguns setores da educação brasileira de que a educação on-line cumpra um papel democratizante ao expandir a oferta de cursos não só em termos geográficos, mas também de modo a atender às necessidades de formação contínua dos profissionais no mercado de trabalho.


Mitos Desfeitos
No segundo capítulo, os autores abordam alguns mitos correntes sobre educação a distância, dentre os quais o de que, nessa modalidade de ensino, o professor tem sua carga de trabalho reduzida. 

Como os autores bem explicam, e conforme pesquisas recentes vêm indicando, a educação a distância costuma exigir do professor uma dedicação muito maior do que normalmente ocorre na modalidade presencial.

A obra também ajuda a desfazer o mito de que a interação fica prejudicada pela ausência de proximidade física entre aprendizes e professores e assim reforça a conclusão de vários estudos que indicam que, apesar da distância (que é física e temporal, pois nem sempre a interação se dá em tempo real), os aprendizes on-line conseguem estabelecer vínculos sociais por vezes até mais fortes do que costuma ocorrer em contextos presenciais de aprendizagem.

Infelizmente, outro mito também freqüente, mas não abordado pelos autores, é o de que a aprendizagem a distância exige pouca dedicação e esforço dos aprendizes, algo não comprovado por estudos já realizados. Tais estudos parecem indicar, na verdade, que nessa modalidade educacional exige-se muito mais do aprendiz, que precisa dominar o conteúdo, a tecnologia e ainda contornar as limitações da interação mediada por tal tecnologia.


Organizando Tudo
O terceiro capítulo aborda aspectos relacionados à organização de um curso a distância via web. Além daqueles aspectos que seriam aplicáveis a quaisquer cursos presenciais, como o estabelecimento de objetivos e conteúdos e a seleção de textos para leitura, os autores enfatizam outro aspecto essencial que desenvolvem em seis dicas (70 a 76): a necessidade de que o aprendiz receba informações prévias sobre o curso. Entre outras coisas, os autores assinalam que o aprendiz deve ser previamente informado sobre as expectativas:
  • do professor - com relação a sua dedicação às atividades e à freqüência de participação no curso;
  • do curso - com relação a seu domínio da tecnologia empregada.


Do Desenho à Prática
O último capítulo, embora de certa forma reitere aspectos desenvolvidos nos anteriores, aborda-os mais objetivamente em função da proposta de desenho de um curso a distância on-line. Dentre esses aspectos, destacam-se estratégias e técnicas para:

  • a criação de um ambiente de aprendizagem em que as necessidades e características individuais dos aprendizes sejam respeitadas;
  • o estabelecimento de vínculos comunitários entre os aprendizes a fim de que seja possível a aprendizagem pela interação;
  • a criação de uma experiência de aprendizagem que permita aos alunos o exercício de habilidades cognitivas sofisticadas que envolvam desde o processamento mais eficaz da informação (comparação, contraste, avaliação de argumentos e hipóteses) até o pensamento crítico.

E a Evasão?
Por tratar-se de uma obra cuja proposta é abordar os aspectos essenciais da educação a distância on-line, 147 Tips parece não ter abordado um dos aspectos que mais preocupa os envolvidos nessa modalidade educacional: a evasão.

É fato conhecido que, em geral, cursos a distância apresentam altas taxas de evasão e os dados estatísticos da recente modalidade on-line não sugerem que tenha havido uma significativa redução de tais taxas. A literatura especializada descreve várias causas para esse fenômeno:

  • insatisfação do discente com características do curso tais como o conteúdo e a insuficiência de apoio docente;
  • incapacidade do discente para lidar com a tecnologia e suas falhas;
  • incapacidade do discente para gerenciar o tempo;
  • inadaptação do discente à interação assíncrona mediada por tecnologias predominantemente baseadas em texto.

Ainda que muitas das 147 dicas sugeridas no livro sejam referenciadas na literatura especializada como formas de prevenir a evasão, o livro poderia abordar esse aspecto tão importante de modo mais explícito em seu primeiro capítulo.

Essencial
147 Tips, como seu subtítulo declara, é mesmo uma obra essencial para quem está iniciando um projeto de ensino a distância on-line e mesmo para aqueles que, já atuando na área, desejam revisar sua prática docente de modo mais reflexivo.

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