Desde os últimos anos da década de 90, o termo guru tem sido utilizado para descrever aqueles consultores que se tornaram famosos por prestar serviços às grandes corporações, publicar séries de livros para propagar suas idéias e viajar pelo mundo dando seminários.
Por mais que o termo tenha sofrido um desgaste que justifique certa desconfiança, não se pode negar que Jakob Nielsen seja o
"guru da usabilidade", tendo em vista que dedicou parte significativa de sua carreira profissional na pesquisa de técnicas para elaboração de interfaces digitais (home pages, intranets) mais fáceis de usar e na divulgação de tais técnicas por meio de palestras e livros como
Homepage usabilidade: 50 websites desconstruídos, publicado em 2002 pela Editora Campus.
Marie Tahir, sua co-autora na mesma obra, teve uma carreira profissional semelhante e é atualmente Diretora de Estratégia da Nielsen Norman Group, empresa dirigida por
Nielsen.
Objetivo do livro
Já no Prefácio (p. 1), os autores declaram que as "homepages são o patrimônio mais valioso do mundo."
Exageros à parte, é necessário concordar que, pelo menos para as grandes corporações, os milhões de dólares investidos em desenvolvimento, divulgação e manutenção tornam esses espaços virtuais extremamente preciosos, ainda mais quando não se pode prever se de fato afetarão positivamente o desempenho comercial das empresas que os criaram.
De qualquer forma, Nielsen e Tahir se propõem a avaliar como a existência ou não de alguns aspectos facilitadores do uso (aspectos da usabilidade) poderia compensar ou pôr a perder os investimentos feitos pelas grandes corporações na criação de suas home pages, ou suas faces para o mundo, como os autores as descrevem.
Homepage usabilidade: 50 websites desconstruídos teria, nas palavras de seus autores, a proposta de defender "um design eficaz", em seqüência à "luta" por eles empreendida anteriormente para "derrubar os terríveis designs hostis aos usuários, promovidos por agências cheias de glamour" (p. 1), ou designs de má qualidade e não fundamentados por estudos científicos como os realizados por Nielsen e outros proponentes do conceito de usabilidade.
Diretrizes de usabilidade e convenções
O primeiro capítulo do livro pode ser descrito como uma apresentação de princípios essenciais, aspectos diretamente relacionados à criação de usabilidade em home pages que os autores chamam de "diretrizes para design".
Há 113 das tais diretrizes, organizadas por tópicos que cobrem desde a informação do objetivo do site até a forma de exibição de cotações do mercado de ações. Ainda que, como os próprios autores reconhecem, seu nível de detalhamento dificulta que sejam utilizadas como uma checklist, elas dão uma boa visão do trabalho que Nielsen e Tahir vêm desenvolvendo em suas pesquisas sobre usabilidade.
O segundo capítulo apresenta algumas das convenções atualmente observáveis no design de home pages tais como a largura e o comprimento das páginas; o posicionamento de logotipos, ferramentas de busca, recursos de ajuda e mapas de navegação; as cores de texto e links e o uso de elementos sonoros e visuais. Os autores recomendam que essas convenções sejam seguidas, pois certamente já são esperadas pelos usuários da Web.
Desconstrução de 50 homepages
Ainda que Nielsen e Tahir considerem que cada uma das 50 home pages analisadas em Homepage usabilidade constituam capítulos individuais, é mais interessante vê-las em conjunto como um terceiro capítulo diretamente relacionado aos anteriores, funcionando como uma aplicação prática das diretrizes e convenções de design.
Cada home page desconstruída foi escolhida por sua popularidade ou pela importância da empresa, órgão governamental ou instituição responsável por ela.
Críticas mais comuns
Boa parte dos pontos problemáticos apontados por Nielsen e Tahir se relacionam a aspectos do texto contido nas home pages.
Esse texto é freqüentemente irrelevante, redundante, pouco informativo, mal organizado, inconsistente ou se encontra mal posicionado.
Vejamos alguns dos problemas mais comuns mencionados pelos autores, já organizados por categorias relacionadas ao texto:
a - Irrelevância
· Uso de 'website', 'on-line' e 'homepage' no título da home page quando o usuário obviamente sabe que está em todos esses contextos;
· Títulos de página iniciados por artigo, o que não permite criar marcadores (bookmarks) na ordem alfabética mais lógica para o usuário;
· Links iniciados por termos repetidos, em geral o nome da própria empresa em cujo website o usuário já se encontra;
· Uso de sinais de pontuação em títulos, slogans e cabeçalhos.
b - Redundância
· Múltiplas ocorrências de um mesmo elemento em áreas diferentes, principalmente opções de navegação;
· Link para a homepage ativo na própria homepage.
c - Baixa carga informacional
· Má descrição do site ao lado do título, ainda que muitas vezes não haja qualquer descrição;
· Slogans em linguagem de marketing (pretensamente inteligentes ou hiperbólicos), mas pouco informativos;
· Cabeçalhos de notícia muito curtos e vagos.
d - Inadequação
· Cabeçalhos de notícia muito longos e difíceis de ler on-line;
· Opções de menu nomeadas com termos que fazem sentido para a empresa, mas não para seus clientes;
· Nomes fantasia que nada informam usados como itens de menu;
· Abreviaturas usadas sem prévia apresentação do termo completo.
e - Inconsistência
· Uso exclusivo de letras maiúsculas ou minúsculas em nomes de página, cabeçalhos de notícia, opções de menu e slogans;
· Uso aleatório de letras maiúsculas e minúsculas entre as opções de um mesmo menu de navegação;
· Uso aleatório de sinais de pontuação.
f - Mau posicionamento e má organização
· Elementos-chave como logomarca e slogan em área não focal (direita superior) para leitores de línguas ocidentais;
· Elementos acessórios como campo Busca (Search) e informações sobre a empresa (About) em área focal (esquerda superior) para leitores de línguas ocidentais;
· Categorias e subcategorias de menus que poderiam ser melhor
agrupadas.
g - Violação de convenções da web
· Mudança no padrão de cores de links (azul para não visitado e roxo para visitado);
· Links não evidentemente clicáveis.
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O resultado dessas falhas, que para os autores constituem problemas de usabilidade, é que o usuário:
- nem sempre sabe onde encontrar a informação de que necessita e perde tempo procurando;
- desiste de ler a grande quantidade de texto mal formatado para o meio digital e perde a oportunidade de encontrar a informação de que necessita;
- sente-se confuso com uma multiplicidade de opções de navegação aparentemente semelhantes ou aparentemente distintas;
- tem dúvida quanto ao benefício que terá se continuar navegando além da home
page.
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Problemas na tradução
Problemas na tradução de textos técnicos como esse não são raros. Apontá-los pode servir menos como crítica do que como estímulo à melhor qualificação dos tradutores.
Da mesma forma, também é útil apontar as boas soluções encontradas pelo tradutor.
O leitor de Homepage usabilidade que não conhecer a língua inglesa certamente se beneficiará dos trechos em que o texto original das páginas capturadas é incorporado à tradução, pois isso ajuda na identificação do conteúdo nas capturas, que estão todas na língua original. Isso pode ser notado, entre outros trechos, no seguinte:
"A seção oficial About RedHerring.com descreve o site como tendo 'unmatched depth of analysis and insider perspective' (uma profunda e inigualável análise e perspectiva de conhecedor)." (p. 257)
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Por outro lado, esse mesmo leitor não anglófono se beneficiará muito pouco em saber qual termo da língua inglesa foi usado pelos autores e muito menos se esse termo foi utilizado de modo humorístico. Em tais circunstâncias, bastaria ao tradutor criar efeito semelhante por meio de recursos disponíveis na língua portuguesa ou simplesmente ignorar tal efeito fazendo uma tradução mais denotativa. Qualquer uma dessas soluções poderia ter sido adotada nos seguintes trechos da mesma página 257:
"... a homepage não transmite essas mensagens com eficiência. Ao invés disso, ela tenta mostrar como a redução das bordas é 'edgy' (irritante)."
"Segundo, a homepage não comunica a perspectiva de pessoas do meio (insiders) que o site oferece."
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Outro problema percebido, mas não desculpável, é o erro na tradução do falso cognato 'stock' que no contexto da página 259 seria traduzível apenas como 'ação' e não como 'estoque':
" 'Stock Lookup' seria um rótulo mais claro para a primeira caixa de entrada. Além disso, a largura da caixa de entrada está boa para símbolos de estoque, mas muito pequena para quando o usuário informar um nome de empresa."
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Errata publicadas e não publicadas
Em seu site de dicas Useit, Nielsen aponta duas errata (Nielsen, 2001) que constam da primeira impressão da obra original em
inglês e, infelizmente, não foram corrigidas na edição brasileira.
O primeiro erro, na página 165, está relacionado às proporções incorretas do gráfico de pizza. O segundo, nas páginas 186 e 187, ao posicionamento incorreto de um índice de análise.
Outros erros podem ser encontrados na versão brasileira que não foram contemplados no site Useit e é possível que existam também na edição em língua inglesa.
Esses erros não listados nas errata afetam substancialmente a compreensão do texto e podem gerar confusão para o leitor. Eles são encontrados nas páginas:
· 249 e 251:
A análise feita nos itens 10, 11, 16 e 21 não está relacionada ao que se vê na captura de tela exibida na página 248. Provavelmente foram feitas duas capturas e apenas uma análise, mas, por algum descuido, houve engano na escolha da captura definitiva.
· 255
Os itens 15 e 16 da análise foram invertidos, o que pode ser facilmente percebido pela incoerência entre as descrições feitas e a captura exibida na página 254:
O índice numérico 15 na captura exibe uma imagem com alguns produtos de farmácia e o título
"FIND ALL OF YOUR FAVORITES for the Medicine Cabinet", mas é referenciado na página 255 como contendo a foto de uma mulher que "não mostra aos usuários o que existe na Natural
Store."
Já o índice 16, que de fato exibe a tal foto, é referenciado erroneamente na página 255 como contendo um gráfico de "produtos reais".
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Há ainda erros que seriam melhor classificados como tipográficos. É o caso das duplicidades percebidas em alguns índices numéricos presentes nas capturas de tela das home pages analisadas que listamos abaixo:
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Página
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Item duplicado
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Item Faltando (seção)
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72
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1
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12 (visitor information)
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80
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1
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12 (February 5, 2001)
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94
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1
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13 (Browse)
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214
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1
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13 (Information For)
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Todos esses erros podem e deveriam ser corrigidos na próxima edição da obra a fim de garantir sua usabilidade para os leitores interessados no tema.
Comentários finais
Apesar dos problemas de usabilidade gerados pelas falhas tipográficas e de tradução apresentadas, Homepage Usabilidade é altamente recomendável pelo seu adequado propósito didático e pela própria proposta de Nielsen, que é de contribuir para a criação de uma "web útil" (p. 1).
Referências
NIELSEN, J. Error Corrections for the 'Homepage Usability' Book. [On-line]
Disponível em
http://www.useit.com/homepageusability/errata.html, 2001.
NIELSEN, J. & TAHIR, M. Homepage Usabilidade: 50 websites desconstruídos.
Rio de Janeiro: Campus, 2002.
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