Buscar Histórias

Histórias Mais Populares






Histórias Recentes
enviada em 03/07 19:46

enviada em 28/06 16:38

enviada em 28/06 11:25

enviada em 20/05 20:05

enviada em 16/05 16:12


Conte sua História
Clique aqui para dividir sua História conosco.

Clique aqui se tiver alguma pergunta ou quiser receber avisos quando houver novas Histórias.
Histórias para Discutir a Educação
Se acredita que o educador é um profissional em construção, divida suas Histórias conosco


Os seres humanos vêm contando histórias há muitos milênios. Afinal, todos os povos têm histórias que explicam suas origens, a origem do sol e da lua e dos processos como o nascimento e a morte. Contar histórias é, enfim, uma forma de apreender o mundo natural e o mundo social em que vivemos.   Mesmo nos momentos mais prosaicos do dia a dia podemos nos surpreender contando e ouvindo histórias. E essas histórias, como quaisquer outras, além de nos trazerem bem-estar e a certeza de pertencermos a uma coletividade, nos ajudam a refletir sobre as atividades complexas que executamos, por exemplo, em nossas vidas profissionais.   Afinal, quem nunca ouviu os 'causos' dos colegas no intervalo entre as aulas ou nas salas dos professores e tirou suas próprias conclusões? Quem não tem uma história de trabalho interessante, triste ou quase incrível para contar?   Este é o convite que faço: divida aqui uma experiência profissional sob a forma de história. Certamente, ao narrar essa história, você 'falará' com um colega que talvez nem conheça, alguém que talvez viva no outro extremo do país, mas tem experiências muito semelhantes às que você enfrenta no ato de ensinar.   Este é um ambiente de pesquisa, mas também um ambiente de aprendizagem. Afinal, todos nós, ao ler ou contar histórias, ao avaliar o valor dessas histórias, aprenderemos muito sobre essa atividade tão complexa que é ensinar.   Seja bem-vind@!   José Paulo de AraújoProjeto Comunicar
Avaliação: Exibições: 950 Comentários: 11 Atualização: 08/01 20:22

Temas
Histórias nas quais seus colegas apresentam as dificuldades que tiveram de superar na educação de alunos 'especiais' (superdotados, com dificuldades de aprendizagem ou algum tipo de deficiência).
Histórias nas quais seus colegas descrevem dilemas éticos que enfrentaram no exercício do magistério.
Histórias nas quais seus colegas contam sobre professores inesquecíveis que merecem uma homenagem.
Histórias nas quais seus colegas abordam questões específicas relacionadas ao ensino de idiomas estrangeiros ou de língua materna.
Histórias nas quais seus colegas abordam problemas que tiveram com alunos 'difíceis' e como conseguiram (ou não) lidar com a situação.
Histórias nas quais seus colegas narram descobertas e incidentes ocorridos durante o trabalho dentro de uma determinada metodologia ou abordagem de ensino.
Histórias nas quais seus colegas abordam questões específicas sobre o ensino em escolas de periferia ou zonas rurais.
Histórias nas quais seus colegas discutem o impacto das políticas educacionais sobre suas práticas docentes.
Histórias nas quais seus colegas abordam a introdução de novas tecnologias da informação e comunicação nas suas práticas docentes.
Leitura Recomendada
Durante algum tempo dei aulas de português como segunda língua, isto é, língua portuguesa para estrangeiros que estão no Brasil a trabalho ou estudo. É uma experiência fascinante, pois exige um distanciamento da própria língua que quase não se tem, nem nas aulas de português da escola, nas quais se ensina uma língua que, convenhamos, não é a do dia a dia.   Mas a história que quero contar, que é sobre uma aula de português para estrangeiros, não é minha. É uma história emprestada de uma professora que foi minha coordenadora de tutoria num curso de línguas para a comunidade acadêmica. Já falei dessa coordenadora em outra história. Vou chamá-la de Sandra, mas esse não é seu nome real. Aprendi muito com Sandra. Esta história foi uma das lições dela para mim.   Bom, mas, como eu disse, tudo tem a ver com uma aula. Nessa aula, Sandra precisava ensinar o verbo 'estar' com preposições de lugar (atrás, na frente de, em cima de, embaixo de etc.), na linha do 'The book is on the table', sabe?   A forma de ensinar era por meio de drills. Se você não sabe do que se trata, basta dizer que é uma estratégia de ensino baseada no fornecimento de um modelo (uma frase correta da língua ensinada) para o aluno repetir. O aluno deve repetir corretamente e receber um reforço do professor, geralmente na forma de um elogio ('Muito bem, John!'). Esse procedimento é repetido frase a frase, sempre da mais simples para a mais complexa.   Os drills eram a estratégia principal dentro do Método Audiolingual, criado nos anos 1950. Mas eles ainda são utilizados no ensino de idiomas.   O curso no qual Sandra lecionava adotava o Método Audiolingual, portanto ela precisaria fazer drills, mas muitos drills para explicar as preposições naquela turma composta de chineses, americanos, franceses e falantes de espanhol de diferentes países da América Latina.   E ela se preparara bem para aquela aula. Tinha drills para todas as preposições e todos os objetos da sala que os alunos já sabiam nomear. E assim ela passou quase meia hora: O livro está em cima da mesa. A caneta está embaixo do livro, o caderno está em cima do livro...   Os alunos repetiram tudo corretamente, e ela pôde passar às perguntas: Onde está o livro? Onde está a caneta? Onde está o caderno? Onde estão as borrachas? Depois da repetição, os alunos começaram a fazer perguntas uns aos outros sob comando de Sandra:   - John, pergunte a Michel onde está o caderno.   E assim foi. Os alunos eram aplicados. Entenderam tudo rapidamente e Sandra ficou exultante com seu sucesso. Os drills eram realmente uma mão na roda na hora de ensinar gramática sem precisar explicar as nuances do português, que tem dois verbos (SER/ESTAR) onde o inglês, por exemplo, tem apenas um (BE). Como professora de inglês, Sandra sabia que devia ser difícil para um falante de inglês entender a diferença.   A aula terminou, os alunos se retiraram. Exceto um: um chinês, cujo nome não me lembro mais.   - Posso fazer pergunta, Sandra?- Claro que pode!- E káde? (aqui tento reproduzir o som do que ele disse)- Káde?!- Isso: káde? Vocês fala isso tempo todo: Káde o livro? Káde meus óculos? Káde a chave?   Sandra quase caiu para trás. Na preocupação de seguir o método à risca, ela se esqueceu de que estava ali para ensinar língua portuguesa tal como é falada no Brasil e, mais importante, no Rio de Janeiro. E aqui, no lugar de 'onde está', se costuma dizer 'cadê'.   Sandra ficou muito envergonhada, mas aprendeu uma lição. E eu também: método não é prisão! ----------José Paulo é analista de treinamento em uma empresa estatal e atua como instructional designer e professor na modalidade a distância em cursos de extensão universitária.
Avaliação: Exibições: 1221
O grupo de professores da escola municipal onde trabalho foi comunicado em outubro de 2002, em um Centro de Estudos, que receberia, no ano seguinte, uma aluna DV. A princípio houve muitos protestos, inclusive da minha parte. Eram comuns perguntas do tipo: Vão jogar a garota aqui e pronto? Os cegos não têm que estudar no Instituto Benjamin Constant? Por que ela vai vir para cá? Quem vai nos capacitar? Quem vai me ensinar a dar aula pra cego? E o material didático? Ela vai receber os livros em Braille? Eu vou ter que aprender Braille? Eu sou obrigado a dar aula pra ela? Posso escolher outra turma? O problema maior foi que, na hora da reunião, não havia ninguém para responder as perguntas. O tempo foi passando, as angústias aumentando, as perguntas sem respostas. Muitas estão sem resposta até hoje.  Nos diziam para ter calma, porque, quando a aluna chegasse, as coisas iriam se esclarecer, teríamos apoio necessário. Com o tempo, percebemos que o apoio e a orientação pedagógica não chegariam sem que nós fôssemos buscá-los e, principalmente, estivéssemos abertos a recebê-los. Só com o tempo percebemos também que ninguém tinha as ‘respostas’, simplesmente porque teríamos que buscá-las dentro de nós mesmos. Dizer pra uma pessoa ansiosa como eu que teria que esperar até o ano seguinte para saber o que fazer era demais. Comecei, então a buscar informações na Internet. Descobri o site do Instituto Benjamin Constant. Fiz o download da fonte Braille Kiama, o que me permitiu conhecer o alfabeto Braille. A fonte fica disponibilizada como uma fonte qualquer e, ao ser acionada, permite a visualização dos caracteres em Braille durante a digitação. Depois, eu imprimia, colocava do avesso em cima de um emborrachado e furava os pontos com a ponta de uma caneta fina. Preparei um pequeno diálogo de apresentação para o primeiro dia de aula da Lindinha (nome fictício). No dia, enquanto ela lia (acompanhando o que eu falava) e ria, eu me segurava para não chorar. Perguntei: “Da pra entender?” Ela respondeu: “Está pequeno (se referindo ao tamanho da letra), mas dá.” Perguntou: “ Os sinais de pontuação são diferentes? Não tem letra maiúscula?” Depois descobri que teria que aumentar o tamanho da fonte para 30 e descobrir as teclas corretas para os sinais de pontuação e letra maiúscula, pois havia ficado tudo errado. Ela comentou ainda: “É a primeira vez que alguém, sem ser a tia Rosinha (se referindo à professora que a alfabetizou) escreve algo em Braille pra mim. Nem minha mãe sabe. A senhora vai poder corrigir meus trabalhos?” Fiquei sem responder. Como explicar pra ela que eu não sabia Braille, que o computador tinha feito tudo pra mim? A partir do site do IBC descobri também que poderíamos solicitar material didático para a Lindinha. A diretora fez um ofício e depois alguém foi buscar. Nesse meio-tempo, não lembro exatamente quando, recebemos a visita de pessoas do Instituto Helena Antipoff. Confesso que até então desconhecia a existência e função do Instituto. Tivemos a oportunidade de conhecer a professora Isabel e o professor Ivan (DV). Participei de algumas reuniões e as coisas começaram a se esclarecer. Uma delas foi de suma importância. Nela uma professora de outra CRE (não lembro o nome) nos contou sobre sua experiência com DVs e nos apresentou muitos materiais adaptados. Me lembro até hoje do OVOBRAILLE. Com uma caixa de ovos cortada ao meio, sem tampa e seis tampinhas de refrigerante, nos ensinou como alfabetizava as crianças. Um dia levei as tais caixas e as tampinhas para a sala. Achei que era importante que os alunos da turma compreendessem como o Braille funcionava. Lindinha adorou. Todos queriam aprender com ela. Muitas das informações que recebia nas reuniões passava para os colegas. Muita coisa a gente inventava. Me lembro da professora de Geografia querendo explicar fuso horário. Montei uma tabela no Excel, dividida em 24 colunas, representando os fusos. Colei tiras de contact transparente nas colunas de forma alternada. Furei os caracteres em Braille representando algumas cidades do mundo. Passei exercícios orais e Lindinha conseguia resolvê-los com a ajuda da tabela. Depois a tabela acabou sendo usada por outros alunos da turma que também não conseguiam fazer os exercícios de fuso horário de forma tradicional. No primeiro ano, Lindinha ficou em uma turma com 28 alunos. Na turma havia muitos alunos com baixo nível de letramento, oriundos de classes de aceleração de outras escolas. Lindinha acabou sendo o destaque da turma. Depois percebemos que tinha sido um erro colocá-la naquela turma. O tempo que parávamos para ditar e soletrar coisas pra ela fazia falta, pois os demais alunos precisavam de um atendimento individualizado até mais do que ela. Alguns professores sugeriram que, para o ano seguinte, ela fosse para uma turma com melhor aproveitamento. Em 2004, Lindinha foi matriculada na turma 601. A turma a recebeu muito bem desde o início, com o único problema de quererem fazer tudo pra ela. Eles tinham que perceber que ela era deficiente e não incapaz. A turma era muito barulhenta e muitas vezes eu tinha que dizer: “Vocês não perceberam que tem uma deficiente visual na sala? Ela precisa me ouvir. Vocês estão vendo no quadro. Ela não.” Não há nada mais constrangedor do que ficar toda hora falando pra turma que há um DV na sala com ele presente, mas muitas vezes isto foi necessário. Disponibilizei na sala um cartaz com o alfabeto Braille e muitos aprenderam com facilidade. Agora Lindinha podia passar bilhetinhos que os outros conseguiam ler. Ela inclusive ensinou algumas colegas a escrever com a máquina Parkson.  Com o tempo, meus textos de inglês foram ficando grandes e não dava mais pra ficar furando todas as letras. Surgiu, então, a ideia de começar a gravar os textos em áudio. Isso facilitava, pois oferecia certa autonomia a Lindinha, principalmente durante as avaliações. Ela trazia o fone de ouvido e transcrevia para o Braille à medida que ouvia a fita. O problema era pra corrigir depois. Ter que ler em Braille, usando os olhos é bem complicado. Demorava, pois tinha que comparar cada caractere com a tabela que eu tinha. Alguns alunos da turma já liam bem melhor do que eu. Às vezes eu mandava por ela as avaliações para a professora da sala de recursos para que fossem transcritas, mas nem sempre isso era possível. Surgiu, então, a idéia de incluir Lindinha digitalmente. O problema foi que não tínhamos laboratório de informática, nem nenhum computador disponível. Em julho de 2004, fiz o download do DOSVOX para o computador da minha casa pra descobrir como ele funcionava. Veio outro problema: Como ensinar uma cega a digitar corretamente se eu mesma ‘catava milho’? Perguntei ao meu marido as posições corretas dos dedos nas teclas. Arrumei um teclado velho, que não funcionava. Lindinha fez em Braille algumas letras com contact transparente com a máquina Parkson e colamos nas teclas. Ela levava aquele teclado pra casa e toda semana tinha que me mostrar que já dominava um exercício de digitação. Prometi a ela que, quando já estivesse dominando o uso do teclado, a ensinaria a usar o computador. Ela dominou o teclado mais cedo do que poderia supor. Tinha que cumprir a promessa. Convenci a minha diretora a permitir a instalação do DOS VOX em um computador da secretaria da escola. Comecei a dar aula pra ela nos meus tempos de complementação uma vez por semana. O som era horrível, mas ela achava tudo ótimo. Fui ao NCE da UFRJ conversar com o professor Antônio Borges, responsável pelo desenvolvimento do programa. Consegui alguns sintetizadores de voz. Agora o computador já lia em inglês, francês, espanhol, voz de homem, mulher e criança; era só configurar. No Natal de 2004, Lindinha ganhou o computador dela e as coisas foram ficando mais fáceis. Fui à casa dela instalar o programa. Lembro até hoje da alegria dela ao escrever uma carta para um tio agradecendo o computador. Estou devendo outra visita a ela, pois agora ela já tem linha telefônica em casa e quer acessar a Internet. As professoras de História, Português, Geografia e Ciências já utilizam material em disquete pra ela. A maior dificuldade é matemática, pois os caracteres são diferentes. Dizer que a inclusão de Lindinha à escola foi fácil é mentira. Foi muito difícil. Cheia de erros e alguns acertos. Diria que muitas vezes ela foi cobaia das nossas experiências. Mais difícil ainda foi a nossa inclusão a ela. Até hoje há pessoas que se sentem tão incomodadas com a presença dela na sala que simplesmente a ignoram. Não querer enxergar a deficiência do outro, mesmo sendo tão clara, muitas vezes demonstra a nossa dificuldade de enxergar as nossas próprias deficiências.  Ao longo de todo este trabalho, muitas vezes foi a própria Lindinha que nos mostrou o caminho, o como fazer. Com certeza, a inclusão dela não teria ocorrido se, além da deficiência visual, ela também apresentasse outros tipos de deficiência. No ano seguinte, Lindinha acabou ficando em uma turma com 48 alunos, o que dificultou muito o trabalho. Passou por problemas de saúde que muitas vezes a impediam de ir à escola. Às vezes nos comunicávamos por e-mail. Por falar nisso, acabei não indo a casa dela configurar a conexão com a Internet. Ela se virou sozinha. Telefonou para alguém do NCE (projeto DosVox) e obteve as informações necessárias. No final de 2006, Lindinha concluiu o Ensino Fundamental, prestou concurso para uma escola técnica estadual pra cursar “Processamento de dados” e foi aprovada. Por dificuldades de locomoção, Lindinha resolveu fazer o Ensino Médio na modalidade a distância e apenas o curso técnico de forma presencial. Segundo informações do último e-mail enviado por ela em 07 de novembro de 2008, seu aproveitamento tem sido muito bom. No início de 2008, recebemos outra aluna DV total: Mari. Mari é tão inteligente quanto Lindinha e já é incluída digitalmente. Usa um laptop em sala de aula (sem acesso à Internet). Textos e exercícios são enviados e corrigidos por e-mail ou disponibilizados em pen drives ou disquetes. A maioria dos professores usa as NTICs para trabalhar com Mari. Com certeza, nossa experiência com Lindinha “deixou as coisas mais fáceis” para o trabalho com ela. Por coincidência ou não, voltei a estudar depois de conhecer Lindinha. Fiz especialização em Informática Educativa (concluída em 2005) e mestrado em Lingüística Aplicada (concluído em 2008). A história acima retrata o olhar retrospectivo de uma professora e (hoje) pesquisadora, certa de que tudo teria sido mais fácil se o grupo de professores tivesse sido previamente capacitado para o trabalho com a aluna DV. Na ausência de uma formação em serviço, busquei pessoalmente atualizar minha formação profissional.    ------------------Simone da Costa Lima é professora de inglês da rede pública municipal do RJ e professora de Informática Educativa do Colégio Pedro II.
Avaliação: Exibições: 1329